Tremendão
Eu tinha contra alguns artistas e gêneros da música brasileira certo preconceito que, depois de algum tempo, comecei a perder.
Por exemplo, Roberto Carlos. Depois de anos de negação, admiti para mim mesmo que gostava de várias músicas dele, até pela memória afetiva, já que minha mãe era fã e o ouvia muito.
Daí resolvi comprar em CDs vários discos que o Roberto gravou na década de 70, alguns deles que minha mãe tinha em casa.
A partir de 1979, 1980, nada mais que ele fez prestou - opinião minha -, mas daqueles discos eu gosto. (Nem dá para dizer quais são, todos eles se chamam "Roberto Carlos"...) E reconheço que ele é mesmo um grande cantor, independentemente das escolhas estéticas.
Acho que o mesmo preconceito que eu tinha com o Roberto acabou se estendendo ao Erasmo, sem razão.
O primeiro LP do Erasmo que tive foi "A Banda dos Contentes". Comprei por causa de uma faixa que ouvira no rádio, "Queremos saber", uma pérola da lavra de Gilberto Gil que o próprio autor não havia gravado (Cássia Eller acabou regravando pouco antes de morrer).
Nesse disco havia também uma bela gravação de "Paralelas", de Belchior, além de um desenho fantástico do Benicio escondido na abertura da capa dupla. (Se você achar esse LP num sebo, vale a pena comprar pelo desenho, senão pelo disco como um todo.)
O fato é que esse disco mudou meu conceito sobre Erasmo Carlos, e esse conceito subiria ainda mais muitos anos depois, quando comprei em CD uma caixa com boa parte de sua discografia.
Tudo bem, na década de 80 a qualidade cai bastante (isso aconteceu com quase todos os artistas nessa década infeliz), mas antes disso Erasmo gravou ótimos discos, que só vim conhecer recentemente. Um dos melhores é Erasmo Carlos Convida, com participações de Gil, Caetano, Dominguinhos, Nara, Rita Lee e outros. Quase trinta anos depois, lança agora um segundo volume, com Chico e Djavan, entre outros.
Curioso observar que grande parte das músicas do repertório do Erasmo não foi gravada pelo Roberto, e vice-versa, embora oficialmente elas sejam parcerias de ambos. O que me leva a crer que cada um gravou, na maioria das vezes, o que fez sozinho. Mas isso é apenas especulação minha.
Experimente escutar a ótima "Cachaça mecânica", que em muito lembra a "Construção" de Chico Buarque, e tente imaginar Roberto Carlos compondo aquilo. Acho que não bate.
Toda essa conversa foi para dizer que hoje considero o Tremendão muito melhor do que me parecia numa visão superficial.
O que essa lenga-lenga tem a ver com caricatura? Nada. É que gosto de música tanto quanto de desenho. Se você não gosta, desculpe pela aporrinhação.
Em tempo: o desenho aí de cima é inédito, e vale para ele o mesmo que escrevi para a caricatura do Guilherme Arantes, umas quatro postagens atrás.
Escrito por Baptistão às 18h08
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